'Travesti não é banguça' e transfobia é crime

Rogéria: A travesti mais famosa do Brasil


Por Sergio Viula


É sabido que a sociedade castiga aqueles que desafiam suas regras de alguma maneira, especialmente aquelas relacionadas normas de controle da sexualiade e do gênero. As travestis são as que pagam mais caro por sua ‘transgressão de gênero’. Elas são punidas com ostracismo, isto é, com sua segregação de áreas quase sempre acessíveis às pesssoas que não desafiam as normas binárias de gênero. Entenda-se por ‘normas binárias de gênero’ aquilo que geralmente se diz através do famoso mantra ‘isso é coisa de menina’ e ‘isso é coisa de menino’. Por causa desse apartheid de gênero, as travestis deixam de ter acesso a uma série de coisas. Destaco aqui a educação, os cuidados médicos e a moradia.

Mas, como dizia Luana Muniz, famosa travesti que atuava na Lapa, no Rio de Janeiro: Travesti não é banguça! O jargão, que se tornou símbolo de resistência, viralizou na Internet, e Luana se tornou alvo do interesse de programas de TV e até de diretores de cinema.


Luana faleceu em 06/05/2017, aos 56 anos, devido a uma parada cardio-respiratória, conforme atestato pelo Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, no Rio de Janeiro.


Travestis e acesso à educação

O acesso à educação é restrito por meio de vários mecanismos de controle social mantidos pela própria 'comunidade escolar', isto é, alunos, pais, professores, coordenadores pedagógicos e administradores, que vão da direção à zeladoria e portaria. Os mecanismos de controle incluem a manutenção de rígido controle sobre as vestimentas, inclusive com o uso de uniformes geralmente caracterizados por distinções arbitrariamente estabelecidas e já cristalizadas sobre o feminino e o masculino e atribuídas ao sexo anatômico (macho e fêmea), como se essa anatomia fosse sempre dicotômica, binária, dual. Existem inúmeras variações nessa anatomia que muitos ignoram e tantos outros escondem. As pessoas intersexuais saem cada vez mais de seus armários e são a prova de que há diversidade até nisso. Se as escolas lidam mal com alunos, pais, professores (etc) que não se encaixam nas normas continuamente reforçadas de gênero sem serem intersexuais, imaginem como seria a vida de uma pessoa que apresentasse caracterísitcas dos dois sexos! Mas, meu foco hoje é a pessoa travesti, não a intersexual. 

A travestilidade pode ser percebida em muitos indivíduos desde bem cedo. E a reação dos transfóbicos de plantão, especialmente nas escolas, pode ser desastrosa. A criança ou adolescente que transgride as normas para expressar-se no gênero com o qual se identifica acaba sendo ridicularizada, coíbida e punida administrativamente nesses ambientes transfobicamente sufocantes.

Além desse mecanismo de controle sobre o que se deve vestir, existe também um dispositivo reforçador de gênero que pode provocar muito sofrimento. Ele pode parecer simples e inofensivo à primeira vista, mas causa dores emocionais profundas sobre a estudante travesti. Trata-se da chamada. Chamar Tábata, que se expressa visualmente toda no feminino, de Teobaldo é uma violência contra a aluna travesti. Mas a chamada não é o único momento em que o prenome se torna um tormento. A identificação pessoal será necessária em trabalhos, boletins e comunicados escolares. Cada vez que Tábata tiver seu nome riscado para dar lugar a Teobaldo, o sofrimento será renovado.

A pessoa travesti, seja qual for a sua idade, deve ser chamada pelo nome social de sua escolha, mesmo que ainda não tenha conseguido fazer a mudança legal de seu nome nos documentos oficiais. Isso é o que chamamos de 'nome social'. Entretanto, escolas transfobicamente sufocantes se recusam a respeitar o nome social de alunas travestis até que uma ação seja impetrada contra elas ou alguma manifestação pública as constranja a agir como deveriam de fato. Infelizmente, em muitos casos, porém, essas escolas contam com a conivência de pais transfóbicos, inclusive das próprias crianças e adolescentes travestis. Quando isso acontece, elas ficam impotentes, tendo que esperar pela maioridade para tomarem providências. Acontece que uma pessoa pode passar de 12 ou 13 anos na escola para chegar ao final do ensino médio - isso se não repetir nenhum ano. A vida da aluna travesti pode ser atormentada por muitos anos se a escola não for acolhedora e proativa em garantir seu acolhimento e bem-estar. O ‘bullying’, ou seja, o assédio moral em forma de ataque verbal ou físico por parte de outros alunos, quando não por parte de professores também, agrava o sofrimento dessa aluna. O resultado de tanto sofrimetno psíquico em ambientes escolares tóxicos é que a criança ou adolescente travesti acaba abandonando a escola.

O resultado disso é que ela dificilmente conseguirá uma colocação no mercado de trabalho formal, sendo empurrada para a informalidade do sub-emprego ou do cinicamente chamado ‘empreendedorismo’, que muitas vezes nada mais é do que um recurso eufemístico para substituir o termo ‘camelô’. Mas será que essa possiblidade está realmente disponível para a travesti tanto quanto está acessível a pessoas cisgêneras (aquelas que não são transgêneras)? Estará a travesti segura naquele ambiente?

Quem já entrou num camelódromo ou em outros ambientes de comércio popular informal sabe como as pessoas pode ser cruelmente preconceituosas naqueles espaços de trabalho e conviência. Muitos homens camelôs são extremamente abusivos no modo como lidam com as mulheres à sua volta. As mulheres, por sua vez, podem ser extremamente cruéis com simples rivais cisgêneras. Agora, imaginem o que passaria uma travesti que, como uma indefesa capivara, se aventurasse por aquelas águas cheias de piranhas e jacarés, considerando-se o potencial destrutivo das interações nesses ambientes profundamente transfóbicos.

Não me entendam mal. Travestis são muito fortes. Elas se defendem bem muitas das vezes. Porém, não detém superpoderes e nem são mutantes ao estilo X-Men. Um grupo enfurecido ou um único indivíduo sorrateiro, armado com uma simples lâmina, pode dar cabo de qualquer pessoa que esteja vulnerável em algum momento de sua vida. E quem seria a pessoa travesti (ou não) que poderia lidar com esse tipo de angústia 24 horas por dia, todos os dias, sem ser apanhada de surpresa ou sem considerar, no final das contas, o suicídio como a saída menos dolorosa?

Não deveria causar estranheza, portanto, que o número de suicídios entre pessoas transgêneras de um modo geral seja altíssimo. Vale lembar que 'pessoas transgêneras' incluem travetis, transexuais e muitas outras. Porém, as travestis são, sem sombra de dúvida, as que mais causam frisson quando saem as ruas para trabalhar, se divertir ou fazer compras como qualquer outro cidadão. 

Apesar de tudo disso, muitas travestis resistem bravamente e dão curso às próprias vidas. Entretanto, não é raro que muitas desenvolvam algum tipo de dependência química. O álcool, asssim como outras substâncias, pode se apresentar como um paliativo para as dores písquicas causadas pela transfobia, mas logo provarão ser uma doença difícil de ser curada. Contudo, as travestis poderiam ter sido poupadas de todas essas dores se fossem respeitadas em seus direitos e valorizadas em seu potencial criativo e produtivo, como qualquer outra cidadã ou cidadão que nunca questinou as ‘normas de gênero’.

Travestis e atendimento de saúde

O acesso aos cuidados de saúde são outra questão. Muitos médicos, enfermeiros e outros profissionais da área de saúde física e mental ignoram as peculiaridades e necessidades das travestis quando estas buscam antendimento. 

Por temerem ser desrespeitadas até mesmo na hora de serem chamadas ao consultório. De novo, Tábata poderá acabar sendo chamada de Teobaldo, causando burburinho na sala de espera, muitas travestis nem sequer marcam uma consulta ou entram numa fila de espera para atendimento. Além disso, elas temem ser atendidas com má vontade por médicos cuja transfobia não foi curada pelos 9 anos de curso e residência, até porque as universidades não promovem esse tipo de reflexão. Esse despreparo e má vontade por parte dos profissionais de saúde resulta em grandes riscos para muitas travestis jovens, que acabam fazendo procedimentos de femininização por conta própria ou contratando aventureiras ou aventureiros que se dizem capazes de dar a elas o corpo que elas desejam. Isso pode gerar problemas sérios de saúde, pois os produtos não são adequados e a falta de supervisão por parte de um profissional treinado e licenciado na área de saúde pode levar a resultados desastrosos. 

Se as travestis jovens carecem de atendimento preventivo, as travestis idosas sentem falta de atendimento terapêutico, pois muitas delas já fizeram o que deveria ter sido evitado, caso tivessem sido devidamente orientadas, e agora precisam de tratamento para os efeitos colaterais. À medida que mais pessoas assumem sua travestilidade e transexualidade, mais mulheres travestis e transexuais tendem a chegar à terceira idade. Elas precisam de atendimento de acordo com suas especificidades. Algumas nunca foram atendidas por um médico que saiba lidar com suas peculiaridades. Travestis são pessoas transgêneras que não buscam operação de transgenitalização. Transexuais, por sua vez, podem buscá-la ou não. Médicos, portanto, precisarão lidar com mulheres com pênis alguma vezes e com mulheres com vaginas em outras – todas sem útero ou glândulas mamárias com potencial para aleitamento materno; todas elas com próstatas, independentemente de terem vagina ou pênis; nenhuma delas com mestruação ou menopausa, mas também não perfeitamente enquadradas no que seria a andropausa se passaram por hormonização para feminização. São diversas as questões. E para todas essas partes do corpo da pessoa transgênera existem demandas que precisam ser atendidas por um profissional de saúde, assim como acontece com o corpo de qualquer pessoa cisgênera. Cada corpo tem suas demandas. E os profissioanais de saúde precisam estar preparados para lidar com todas elas.

Mas não são apenas as travestis jovens que precisam ser orientadas quanto ao atingimento de seus alvos em relação ao corpo que desejam ter. Há também travestis com mais idade que não se assumiram na juventude, mas querem fazê-lo agora. Estas também precisam de orientação sobre como proceder para atingirem seus objetivos sem prejudicarem sua saúde ou agravarem quadros patológicos já existentes, tais como: Problemas cardíacos, respiratórios, circulatórios, etc.

Para que nunca ouviu o que as travestis pensam sobre envelhecimento, isso pode parecer muito estranho, mas existem travestis que não querem mais manter o silicone ou sua rotina de hormonização por diversos motivos diferentes. No livro Velhice Transviada, de João W. Nery, Sissy Kelly Lopes fala sobre isso. Veja o trecho abaixo.



Quando decidem 'destransicionar', algumas delas ganham feições não-binárias, ou de gênero indefinido, ou seja, acabam não se enquadrando mais no visual de mulher nem no visual de homem, conforme imaginado pela sociedade. Essas pessoas devem ser respeitadas em suas decisões, mas bom seria que recebessem apoio psicológico ou psicanalítico, pois esse súbito desejo de se desconstruir pode ter algo a ver com a transfobia circundante ou até mesmo internalizada. Ela pode estar precisando de ajuda para entender quais são suas possibilidades como travesti que entra na terceira idade ou que já idosa mesmo. O ideário de travesti sedutora e sempre sexualmente disposta pode ser um fantasma assombrando as pessoas que já não se enquadram nesse estereótipo. De novo, é preciso que profissionais de saúde, nesse caso especialmente psicólogos e psicanalistas, estejam preparados para lidar com essas questões em relação ao ser e ao devir da pessoa travesti.

Travestis e moradia

Sobre moradia, o problema mais conhecido pela maioria das pessoas quando se trata de jovens travestis é o da expulsão de casa. Muitas famílias, querendo se livrar dos comentários de vizinhos, amigos e parentes sobre a sexualidade e a transgeneridade do 'filho' - e por se recusarem a pensar 'nele' como ela, acabam tornando a vida da jovem travesti insuportável dentro de casa. Isso pode levar à fuga na tentativa de obter vida melhor. Em outros casos, a própria família expulsa a travesti de casa com todas as letras. Da noite para o dia, ela se encontra sem pai nem mãe, sem irmãos, sem suas coisas, sem seu lugar de repouso. A fofoca, porém, não deixará de acontecer, pois os vizinhos, amigos e parentes falarão do mesmo jeito, ainda que finjam acreditar que ‘fulaninho’ foi para outra cidade estudar ou trabalhar, como alegado pelos pais.

A travesti jovem, agora sem casa e sem idade para trabalhar, ou sem renda porque não tem emprego, acaba ficando vulnerável a todo tipo de violência nas ruas das grandes e pequenas cidades. Não faltarão traficantes querendo usá-la como ‘aviãozinho’. Logo, ela mesma gastará o dinheiro obtido com a venda de drogas para comprar suas próprias drogas. Depois disso, a pessoa fica presa nesse círculo vicioso. 


O envolvimento com tráfico ou com o uso abusivo de drogas pode culminar em encarceramento, caso a pessoa travesti seja flagrada pela polícia. O cárcere é outro local onde a transfobia já se manifesta na pessoa do agente da lei, seja o policial, o delegado, o carcereiro ou outros. 

O caso Verônica Bolina não pode ser esquecido. Acusada de agredir uma senhora durante um surto psicótico, ela foi desfiguada pelos policiais que a detiveram, teve suas roupas rasgadas, os seios expostos e seus lindos cabelos raspados. Do local da prisão até o presídio, eles fizeram tudo o que puderam para transformar o visual de uma princesa na face de um monstro coberto de hematomas. Só mesmo um negador da realidade diria que isso não foi motivado por transfobia. Veja fotos abaixo.

Mais informações sobre o caso nesse link também.



Verônica foi violada de várias formas pelos agentes que deveriam apenas detê-la.


Não faltarão cafetões ou cafetinas dipostos a oferecer um quarto para a travesti expulsa de casa ou que não suportou as humilhações e saiu. Só que o quarto dificimente será só dela. Ela conviverá com pessoas cujos hábitos e vícios podem criar constrangimentos de todos os tipos a novata. E se ela quiser continuar morando ali, vai ter que fazer o papel de escrava sexual dos clientes que 'consomem' o que a casa oferece. Não confundir o crime de exploração sexual que a cafetinagem faz com essa travesti com o trabalho autônomo de uma profissional do sexo. No caso da cafetinagem, ela será obrigada a vender o que tem de melhor (seu corpo) para enriquecer os que a exploram sem piedade em troca de um cárcere falsamente chamado de residência. E como não existe reconhecimento legal do trabalho das pessoas que atuam como profissionais do sexo, a travesti que decidir trabalhar por conta própria dessa maneira correrá o risco de ser esfaqueada ou até morta por mafiosos que se consideram os ‘donos’ da rua. Era isso que o projeto de lei que ficou conhecido como "Lei Gabriela Leite", de autoria do Deputado Jean Wyllys, em 2012, queria evitar. A hipocrisia da sociedade, refletida no Câmara dos Deputados, inviabilizou o trâmite do projeto. 

Veja o texto do projeto aqui: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1012829



Amara Moira, doutora pela UNICAMP 
E se eu fosse puta foi lançado em 2016. 
Atualmente, não trabalha mais como profissional do sexo, 
mas é uma defensora da regulamentação da prostituição no Brasil. 
Além disso, Amara acredita que a literatura é fonte de transformação social.


Quando a travesti consegue alugar um lugar só seu, depois de batalhar muito para ganhar dinheiro, seja em ofícios mais respeitados como os de cabelereira, manicure, etc., seja através da renegada – mas sempre procurada pelos ‘homens de bem’ – prostituição, ela ainda poderá sofrer assédio transfóbico por parte de síndicos e condôminos. Em muitos casos, a pessoa travesti não conseguirá sequer alugar casa ou apartamento simplesmente porque o dono do imóvel rejeita terminantemente a ideia de ter uma travesti como inquilina, geralmente achando que a casa se transformaria num ‘puteiro’. Senhorios e imobiliárias costumam agir como se travestis fossem encrenca. Ignoram que muitas delas mantém excelente ambiente familiar em casa, inclusive cuidadando de mães ou pais idosos, educando sobrinhos cujos pais são incapazes de cuidar deles, entre outros. Algumas são casadas e mantêm excelente relacionamento com seus parceiros. Existem, sim, travestis que não se comportam de acordo com as boas regras de convivência, mas essa também é a realidade de muita gente não travesti que nunca teria sua proposta de aluguel negada apenas por uma passada d’olhos sobre sua figura.

O pior dos mundos para uma travesti

Com problemas para permanecer na escola, entrar no mercado de trabalho, acessar atendimento médico, viver em paz na casa dos próprios pais, assinar contrato de alguel para viver em paz, além de ter que lidar com vários outros fatores decorrentes dessas violências, como o uso excessivo de álcool e outras drogas, a travesti que não trabalha sua autoestima e fracassa em estabelecer um pacto perpétuo de amor próprio e considera a possibilidade de abrir mão de direito à autoexpressão, pode acabar se tornando alvo fácil para outro grupo de predadores além dos já conhecidos cafetões e traficantes, os quais são reconhecidamente perigosos e maléficos. A classe de canalhas a que passo a me refeir aqui são ainda mais nocivos por não parecer tão venenosos, mas são extremamente peçonhentos.

Refiro-me a um tipo específico de patife, geralmente disfarçado de amigo muito interessado no bem-estar das pessoas. Ele chega à pessoa travesti todo trabalhado na verborragia do amor incondicional. Algumas desavisadas pensam que esse papo de amor incondicional é sério. Não percebem que trata-se apenas de uma isca que camufla o mortífero anzol. O pilantra diz: “Jesus te ama, mas você tem que deixar de ser travesti.” Peraaaaaaaaaaaaaaaí! Atenção aqui! Se a travesti não se negar a ouví-lo a partir daí mesmo, ela quase certamente será fisgada por esse farsante. Trata-se do pastor evangélico metido a ‘curandeiro’ de travestis e de outros membros da comunidade LGBT+.

Algumas travestis depois de terem conhecido o pior da vida, graças a esses mesmos canalhas que a demonizam e a outros tantos que ouvem suas doutrinações transfóbicas, fica desarmada ao ser abraçada e ouvir alguém dizer que a ama. Ela acredita que seu valor foi finalmente reconhecido, mas não percebe que está sendo seduzida por artemanha. A pessoa que lhe fala com ares de bondade é um transfóbico representando um deus transfóbico que, de acordo com sua mitologia, tem o poder de lançá-la no fogo eterno se ela simplesmente se atrever a continuar passando batom e andando de salto alto. São duas fabricações imaginativas: o suposto ungido de deus e o suposto deus que o ungiu.

Uma vez fisgada por esses patifes que juram saber exatamente o que ela precisa, garantindo que ela só econtrará felicidade naquela igreja, com aquele pastor, dando seu dízimo fielmente, é claro, essa travesti chegará ao cúmulo de se ‘desmontar’ toda para se enquadrar no lugar onde sempre tentaram enfiá-la de todos os modos possíveis. Ela lutou bravamente, mas agora, desarmada por falsas promessas em nome de deus, ela cai numa das armadilhas mais eficazes para capturar pessoas frustradas – a da religião.

Tais religiões, seitas e cultos se consituem no mais cruel, mesquinho e dissimulado de todos os mecanismos de controle e sujeição às normas do patriarcado – todas elas carregadas, em maior ou menor grau, de machismo, misoginia, transfobia e homofobia. A travesti, uma vez domada, será devassada e manipulada em toda a sua intimidade.

O pastor patife, promotor de ‘cura’ para a travestilidade, é pior, repito, do que o cafetão e do que o traficante, pois destes a travesti sabe que precisa se desvincular o mais rápido possível, mas do suposto mensageiro do suposto deus, ela temerá se afastar sob pena de condenação eterna. Algumas nem acreditarão em castigos ou recompensas pós-mundandos, mas se sujeitarão a esses manipuladores para não perderem sua mais nova 'conquista': Ser parte desse simulacro de família de deus que parece poder substituir outro simulacro – o da família biológica que a rejeitou ou que adoraria que Tábata voltasse a ser Teobaldo.

Para usufruir do respeito e da admiração de sua nova ‘fraternidade’ (leia-se alcateia transfóbica devoradora de ovelhas travestis desavisadas), a recém-cooptada travesti deixará de tomar seus hormônios ou fará a retirada do silicone tanto quanto possível e o mais rápido que puder. Logo que entrar para aquela colônia de desequilibrados sexualmente mal resolvidos, ela será obrigada a colocar roupas masculinas, deixará crescer pelos em partes geralmente destinadas a isso pelos machistas de plantão, tentará falar em ‘voz masculina super masculinizada’ (geralmente sem sucesso) e pedirá que o fictício deus transfóbico, fingidamente amante de travestis arrependidas e dipostas a renunciarem sua própria travestilidade, elimine quaisquer trejeitos femininos em sua postura e gestual. Nasce, então, a figura nada miraculosa ‘do’ ex-travesti.

Ex-travestis: Seria divertido se não fosse trágico


Talita Oliveira, a A travesti-propaganda de Feliciano diz que não existe "cura gay"


Ex-travestis tentam se comportar como homens cisgêneros heterossexuais à luz dos holofotes. Alguns deles até se casam com mulheres cisgêneras e têm filhos para comprovar sua hiper-cisgeneridade heterossexual. Juram que amam suas mulheres e que estão plenamente satisfeitos com elas. A igreja dá glória a deus, e o ‘ex-travesti’ se sente tomado pelo fogo do deus transfóbico que jura existir. Quando já ia sapatear no fogo santo, ele pensa: “É melhor não. E se o meu sapatear no espírito santo parecer mais com o rebolado de uma das passistas do Sargenteli sambando sobre o altar?" Segura a onda, Tábata. Você agora é Teobaldo (#sqn).

De fato, a Tábata dentro dele se recusa a morrer.

Durante a noite, Teobaldo sonha com aquele macho gostoso que ele viu no culto. Nada diferente do que acontece com muitas 'irmãzinhas' santíssima, trabalhadas no jejum, na vigília e na batalha espiritual. Algumas delas sonham em "dar o seu melhor" ao pastor. Mas, voltando à Tábata, pode ser que ela relembre algum momento áureo de relacionamento de seu passado com algum cabra-macho que sabia fazê-la feliz como ninguém mais faz. O desejo bate à porta. Tábata nem precisava lembrar o caminho de volta. Ela nunca foi embora. A gloriosa travesti sempre esteve ali, apesar de recalcada sob todo aquele escombro machista-heterossexista que Teobaldo foi acumulando na igreja ao som gospel de “entra na minha casa, entra na minha vida” e com toda aquela babaquice "evangexcêntrica" que vocês já conhecem.

Teobaldo tem duas opções basicamente: 

1. Continuar fingindo que Tábata nunca existiu, ou que morreu sem jamais poder ser ressuscitada de novo, enquanto entrega-se à imaginação carregada de erotismo com outros homens e vai aliviando seu tesão naquele jogo de ‘cinco contra um’, mesmo se sentindo culpado a cada ejaculação;

2. Ou sair do armário de uma vez e assumir que é travesti mesmo, que nada mudou de fato, e que tudo não passou de um grande engano. 

Nada disso, porém, teria acontecido se Tábata tivesse sido respeitada e aceita nos espaços de conviência, assistência, produtividade e recreação aos quais as pessoas têm livre acesso quando ninguém encontra nelas qualquer vestígio de transgressão das regras binárias de gênero. Em outras palavras, quando a pessoa em questão não é travesti ou outro transgênero.

Se escolher a primeira opção, Teobaldo continuará trabalhando de graça para a igreja e fazendo contribuições expressivas na esperança de se livrar da culpa pós-masturbação com desejo por outro homem. Mas vale lembrar que muitas dessas travestis enfiadas em ternos e gravatas na escola dominical estão transando com outros 'servos de deus' que, como elas, estão no armário e não se aguentam mais. Enquanto isso, Teobaldo mantém seu casamento ‘heterossexual’ a duras penas e sem contar para sua mulher que ela transa todos os dias com um simulacro de ‘mensageiro do deus trasfóbico’ que é apenas Tábata recalcada no fundo de uma psiquê adoecida pela transfobia, mas nunca morta de fato. O melhor para as duas era que Tábata saísse logo do armário e elas pudessem ir ao cabelereiro juntas ou viverem (felizes) separadas para sempre.

Às queridas travestis

Amiga travesti, não existe maior equívoco do que sacrificar sua própria identidade ou expressão de gênero para se submeter a alguém ou alguma coisa em troca de reconhecimento ou acolhimento. Há outras maneiras de se construir redes de apoio mútuo. E para quem não dispensa religião de alguma maneira, existem lugares ‘sagrados’ menos tóxicos do ponto de vista da transfobia dogmática.

Faça escolhas melhores. Nenhuma escolha jamais será boa o suficiente se em vez de te empoderar como a pessoa que você é, isso te enfraquecer e te conduzir a se sujeitar a enquadramentos basedos em auto-ódio ou em ‘amores condicionais’ que não passam de cantos de sereia. E não me refiro de modo algum à bela Ariel, princesa da Disney. Refiro-me às carnívoras sereias que povoam o imaginário mitológico greco-romano.

Diante desses pastores-sereias-carnívoras-devoradoras-de-travestis, faça como Ulysses que pediu para ser amarrado ao mastro do navio e tampou os ouvidos de seus companheiros com cera quando estavam para cruzar o mar infestado por essas perigosas criaturas mitológicas, a fim de não serem atraídos e devorados por elas. Tampe seus ouvidos para pregação mortífera desses fundamentalistas religiosos mal resolvidos com sua própria sexualidade e autoproclamados representantes de um deus pior do que eles e tão fake quanto eles. Se não o fizer, você será devorada pela transfobia desses canalhas.




Sugestão e leitura


Drag Star no Teatro Rival: Duelo de finalistas


É HORA DA FINAL DO DRAG STAR!  

A decisão do concurso mais purpurinado do Rio é no dia 11 de dezembro, no Teatro Rival Petrobras
                              





Seleção, eliminatórias, batalhas. Depois de uma longa disputa, chegou a hora de conhecermos a “Drag da Cidade: Rainha do Rival”. A grande final do concurso Drag Star, voltado para drags de todos os estilos e tempo de carreira, será no dia 11 de dezembro, a partir das 19h30, no Teatro Rival Petrobras.


Inspirado no formato dos reality shows The Voice e XFactor, o Drag Star é um show de talentos que busca encontrar a Drag mais completa para receber o título de “Drag da Cidade: Rainha do Rival”. Apresentado pelas donas de concurso mais carismáticas da cidade, Miami Pink e Ravena Creole, o concurso conta com um júri turbinado, formado por Andreia Andrews, Chloe Van Damme, Palloma Maremoto e Samara Rios, madrinhas e mentoras das candidatas ao título. As cinco finalistas são Ivana Conda, Organzza, Rani Bong, Shandra e Velma Real.


Sobre a idealizadora Miami Pink

Miami Pink - Auri Alencar, 32 anos, microempresário, desde a infância admirador apaixonado pelo mundo drag. Há sete anos deu vida à personagem Miami Pink. O que começou como um hobby, logo no primeiro ano de vida da sua personagem, virou profissão! Trabalhou como performer nas mais conceituadas boates LGBTQIA+ do Rio de Janeiro: TV Bar, Galeria Café, La Paz, Fosfobox e The Week. Atacou como VJ em algumas festas e eventos. E também trabalhou como hostess no TV Bar por dois anos. Trabalhou também como assistente de produção de eventos nas edições mensais da festa Priscilla, que trazia drag queens participantes do programa RuPaul's Drag Race para se apresentarem no Brasil. Já foi entrevistado para o G1, Revista Quem e Jornal o Globo e participou também da novela “Verão 90”, da TV Globo, como figuração especial. Em 2017, deu início a seu primeiro projeto, um concurso para drags iniciantes chamado “Queens, o Concurso”, que durou dois anos e meio com edições semanais, totalizando mais de 120 edições no Rio e em São Paulo. Além de produtora, era também apresentadora drag do evento. E, em agosto de 2018, iniciou seu segundo projeto, o concurso Drag Star, em que trabalha como produtora e também apresentadora.


As finalistas

Ivana Conda - Renato Ribone, carioca da Penha, 25 anos, é ator formado pela Faculdade CAL de Artes Cênicas. É cantor, apaixonado por música brasileira e teatro musical. Criou a personagem Ivana Conda em maio de 2019. Sua única experiência em competição está sendo o Drag Star, no Teatro Rival Petrobras.


Organzza - Organzza é a personagem drag do ator e figurinista Vinícius Andrade, morador de Coelho Neto. Organzza nasceu há 1 ano e 6 meses para participar de um concurso de drags iniciantes, do qual saiu vitoriosa e desde então nunca mais parou. Hoje trabalha fazendo figurinos para outras drags, performando em festas pela cidade e como performer residente em um bar em Copacabana. 


Rani Bong - Carina Caldas tem 23 anos, mora na Gávea, é jornalista e gosta de escrever sobre moda, beleza e feminismo. Em 2017, em busca de matérias para escrever sobre o dia do Orgulho LGBT, entrevistou três drag queens mulheres que desafiavam estereótipos de gêneros na criação de seus personagens. Palloma Maremoto, Vlada Vitrova e Ginger Moon foram suas primeiras inspirações para criar Rani Bong, drag queen que a jornalista encarna há cerca de dois anos. A persongem tem ensinado bastante a Carina sobre usar seu corpo como performer e como construir uma carreira dentro e fora do meio LGBTQ+, que, apesar de parecer mais inclusivo, ainda oferece barreiras para mulheres cis ou trans que convivam nos mesmos ambientes. 


Shandra – O designer gráfico Otávio Luna, de Cascadura, tem 31 anos e um ano atuando como drag. Seu TCC na faculdade foi sobre Drag. Chegou à final do primeiro concurso de que participou: o “Queens, o Concurso”, ficando em 6º lugar. Atualmente, além de estar no Drag Star, está filmando e estrelando um curta-metragem só com drag queens: “Dalila”.


Velma Real – A personagem Velma Real nasceu nos musicais há dois anos e já atuou nos espetáculos "Beatles no céu de diamantes", "Kinky Boots" e "A pequena sereia", no qual interpretou a personagem Úrsula. Tem duas músicas autorais no Spotify ("Puro veneno" e "Tem magia"), contando com mais de 40 mil streamings online. Por trás de Velma, existe Caio Godard de 25 anos, morador da Glória, formado em Licenciatura em Artes Cênicas, coordenador de teatro da secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro.




Serviço

Teatro Rival Petrobras - Rua Álvaro Alvim, 33/37 - Centro/Cinelândia - Rio de Janeiro. 

Data: 11 de dezembro (quarta-feira). Horário: 19h30. Abertura da casa: 19h. 

Ingressos: R$40,00 (inteira) R$20,00 (lista amiga) . Venda antecipada pela Eventim - http://bit.ly/TeatroRival_Ingressos2GIaEKp 

Bilheteria: Terça a Sexta das 13h às 21h | Sábados e Feriados das 16h às 22h 

Censura: 18 anos. 
www.rivalpetrobras.com.br. 

Informações: (21) 2240-9796. 
Capacidade: 350 pessoas. 
Metrô/VLT: Estação Cinelândia.



*Meia entrada: Estudante, Idosos, Professores da Rede Pública, Funcionários da Petrobras, Clientes com Cartão Petrobras e Assinantes O Globo



         Assessoria de imprensa:  Sheila Gomes - SG Assessoria

Crises de ansiedade e a atual conjuntura

Por Sergio Viula


A tempestade é grande, mas não vai durar para sempre.



Tenho recebido muitos relatos de alunos com crise de ansiedade. Muitos ficam paralisados diante da vida sem conseguirem explicar por quê. Um sentimento de angústia toma conta da pessoa em crise, e ela não consegue levar adiante as tarefas mais simples de sua rotina diária, tais como assistar aula, fazer prova ou coisas assim.

Tenho pensando se muito disso não se deve ao atual quadro político-social brasileiro. Toda a instabilidade gerada por governantes incapazes e inescrupulosos, como os que temos hoje na presidência e em muitas prefeituras e governos estaduais, além de parlamentares sempre à espreita de uma oportunidade para destruir algum direito trabalhista, previdenciário ou civil, geralmente atingindo as já combalidas classes mais baixas da pirâmide social. 

Da arte ao meio ambiente, passando por segurança pública, saúde, educação, moradia e outras áreas fundamentais para a coexistência pacífica e próspera de uma sociedade complexa como a nossa, esses governos e legisladores incompententes e maliciosos vão detonando tudo o que podem, sendo apenas detidos aqui e ali por alguma decisão judicial ou por causa de algum escândalo que os atinja e imobilize antes que façam mais estrago.

Talvez esses sintomas psicossomáticos sejam provocados por essa instabilidade e pelas ameaças diariamente renovadas e ampliadas, É provável que, como tais, eles pudessem ser suprimidos se as pessoas colocassem para fora seus 'demônios' na base do grito e das marchas espalhadas pelas maiores cidades do país. Mas, como não expressam sua raiva e descontentamento de forma verbalizada, acabam sucumbindo à negatividade dessa energia psíquica recalcada.

Sou daqueles que não perdem uma oportunidade de fazer oposição aos fascistas que aí estão. E o faço dentro e fora das redes sociais. Não há quem conviva comigo que não saiba o que penso sobre o valor da diversidade baseada em liberdade para a autonomia individual e acompanhada pelo respeito ao outro no exercício desse mesmo direito. Impedir o movimento alheio em qualquer direção só se justifica quando ele coloca em xeque algum direito fundamental de terceiros. Se não coloca, está liberado e faz quem desejar. Quem não quiser, não faz. Esse é meu lema.

Apesar desse meu jeito de ser, não posso negar que algumas cicatrizes têm sido colecionadas a partir desses embates. Nada que inviabilize minha existência como ato e como devir. O que me aconteceu essa noite, porém, pode dar uma ideia do que quero dizer.

Essa noite, sonhei com um querido amigo. Seu nome é Claudio Pfeil. Ele é filósofo e psicanalista, uma pessoa formidável e um dos seres humanos mais belos que eu já conheci. Ele foi meu professor na UERJ. Tive o privilégio de estudar Sartre com ele. Que momentos ricos e refrescantes num período da minha vida em que eu enfrentava gigantes para sobreviver a uma volta por cima de mim mesmo rumo a novas maneiras de ser e de viver... A disciplina terminou e eu fui aprovado com excelentes resultados, mas nunca mais consegui encaixar horário em disciplinas oferecidas por esse querido mestre novamente. Terminei a faculdade, mas continuamos amigos. Temos acompanhado a vida um do outro há anos agora.

Pfeil conheceu Marcio, com quem se casou. Os dois têm construído uma linda biografia como casal. Ambos administram um espaço maravilhoso de convivência e pensamento crítico chamado Casal Vit(r)al, situado na Urca, icônico bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. 

Durante o período de ditadura miltiar, a Urca encarnava as tensões entre os milicos repressores e a libertária Universidade Federal do Rio de Janeiro. Claro que na universidade devia haver gente que simpatizava com essa praga chamada ditadura, assim como nas Forças Armadas devia haver quem quisesse que esse pesadelo terminasse logo, mas os focos de resistência através do conhecimento, das manifestações culturais e políticas oriungos da univeridade mantinham sempre viva a chama dos anseios pela democracia plena e de fato.

Pfeil é um guerreiro cujas armas são conhecimento, informação, pensamento e emoção. Ele conjuga tudo isso de modo magistral. Não consigo evitar a ideia de que o sonho que tive com ele seja um indicador de cicatrizes invisíveis em minha psiquê. Cicatrizes decorrentes desses embates diários contra a repressão e a destruição do que nos é mais caro. E quando digo 'nos é mais caro', refiro-me àqueles de nós que realmente amam a liberdade e não aceitam negociá-la com fascistas, fundamentalistas religiosos e outros moralistas hipócritas e desequilibrados. 

O sonho foi o seguinte:

De repente, eu estava cercado de homens armados que 'brincavam' entre si na minha frente, dizendo que não sabiam se matavam o Pfeil ou se o deixavam ir. Foi aí que eu percebi que ele havia sido detido ou sequestrado por eles, mas eu não o via. Eu tentava timidamente dissuadi-los, mas não tinha poder para oferecer resistência diante daquele bando de homens armados. 

Depois de muito tempo angustiado, um desses caras, que mais parecia um sniper, com gorro e tudo, chegou onde estávamos e disse que já tinha executado o prisioneiro. Fiquei sem chão. Não sabia o que fazer. A sensação de impotência diante da maldade amargava na minha boca, mas eu não podia deter aqueles canalhas. Depois de um tempo, eles me liberaram. Eu tinha no colo um pacote, como esses de mercado americano ou de lojas de conveniências, feito de papel pardo e sem alças.

Dentro do pacote, havia uma garrafa de vinho e algumas guloseimas que eu pretendia levar para um encontro com o Pfeil e  com outros amigos. Voltei para casa pensando em como diria ao Marcio, marido do Pfeil, o que havia acontecido. Coloquei o pacote no chão da cozinha, levantei a garrafa de vinho, ohei e pensei: Nós íamos beber e comer juntos, e agora ele está morto. Como vou dizer isso ao Marcio. Será que ele já sabe? Quem estava lá para ampará-lo quando ele recebeu a notícia? A angústia era insuportável. 

Comecei a pensar que tinha que fazer uma tarnsmissão ao vivo pelo Facebook para contar a todo mundo. Nem mesmo diante da morte, meu espírito combativo foi dobrado. Eu ia denunciar aqueles canalhas e fazer uma homenagem ao meu querido Pfeil - alguém que havia marcado minha vida tão positivamente e a quem eu nunca mais veria. Eu sabia muita coisa sobre ele de cabeça, mas pensava em ler um wiki sobre ele (nem sei se existe na vida real um post no wikipedia sobre ele, mas no sonho, havia um). Dali, colheria algumas datas e informações mais detalhadas sobre a biografia dele. Quando eu me encaminhava para ligar o computador e fazer isso, acordei do sonho. A angústia ainda travada na garganta. Aos poucos, ela foi cedendo lugar ao alívio de ver que aquilo era apenas um pesadelo.

Gravei um áudio e enviei para o meu querido amigo Pfeil contando sobre tudo isso que você está lendo agora. Chorei enquanto relatava. O sentimento de angustia tão realisticamente vivido na ficção de um pesadelo ainda estava lá e precisava ser liberado. Pedi que ele tomasse cuidado, pois é muito combativo e, apesar de fazer tudo com muita beleza e delicadeza, certamente incomoda os odiadores de si mesmos, da vida, do mundo. Esses que projetam tudo para além-mundos, enquanto desprezam tudo o que há de mais belo e nobre na vida. Esses projetam suas existências psicossocialmente miseráveis na forma de ódio contra terceiros, geralmente algum grupo estigmatizado, para que se sintam menos mal a respeito de si mesmos. Não há gente mais desagradável e perigosa no mundo.

Depois dessa experiência, fiquei pensando nas pessoas cuja fibra psíquica poderia ser mais frágil que a minha, e não pude evitar a ideia de que aquilo que em mim já é cicatriz ainda pode ser ferida aberta na psiquê desses meus alunos que atualmente se encontrando devastados por crises intensas de ansiedade ou mesmo de depressão. O que tenho oferecido a eles é minha mais profunda solidariedade através de conversas francas e acolhedoras, mas duvido que isso baste.

Não temos alternativa melhor do que a de resistir. Portanto, sejamos fortes, corajosos, mas não tenhamos medo de chorar e de expressar nossos sentimentos. Se não o fizermos conscientemente, eles vião à tona de outras maneiras, inclusive no formato de pesadelos, como o que me aconteceu essa noite.


Marcio (à esquerda) e Pfeil no lançamento do livro Diário de um Analisando em Paris, 
escrito por Claudio Pfeil.


Aos meus amigos Pfeil e Marcio, bem como todos os que fazem da Casa Vit(r)al uma realidade, os meus mais sinceros votos de vida longa e frutífera. Todo meu respeito e admiração. 

Não poderia deixar de registrar aqui que Pfeil têm me convidado repetidas vezes para comparecer aos encontros da Casa Vit(r)al, tanto como ouvinte quanto como orador, mas o horário da casa bate com meu horário de trabalho, infelizmente. Por isso, tenho sido privado do prazer da companhia dessas pessoas tão queridas, mas não esqueço do dia em que eu e Andre, meu marido, fomos ouvir Amara Moira falando na Casa Vit(r)al. Claudio e Marcio, vocês prepararam tudo tão impecavelmente que é impossível que um visitante novato não queira voltar. ^^ 

Temos registro desses momentos:
https://foradoarmario2.blogspot.com/2019/01/amara-moira-na-casa-vitral-veja-como-foi.html

Quem quiser saber mais sobre a Casa Vit(r)al, pode falar diretamente com seu idealizador aqui:
https://www.facebook.com/DiarioDeUmAnalisandoEmParis/

Homofobia: Henry Sobel e seu humanismo parcial

Por Sergio Viula

Henry Sobel morre de câncer aos 75 anos (novembro de 2019)


Todos lamentamos a morte de Henry Sobel, mas poucos sabem da homofobia que caracterizava suas crenças e pensamentos. Veja mais no vídeo abaixo. 


Inscreva-se no canal do Blog Fora do Armário no YouTube.








LEIA: A HOMOSSEXUALIDADE É RACIONALMENTE JUSTIFICÁVEL?

https://foradoarmario2.blogspot.com/2019/06/a-homossexualidade-e-racionalmente.html


Via Eduardo Michels: Foi em junho de 2003, que os ministros do Supremo Tribunal Federal em um julgamento histórico, sobre o caso de racismo contra o povo judeu, afirmaram que nenhuma forma de discriminação ou discurso de ódio, pode ser camuflado como liberdade de expressão, inclusive a HOMOFOBIA.... este julgamento abriu caminho para a criminalização da homofobia este ano. https://www.youtube.com/watch?v=rp7dI7K_pvE

Sobre rabinos e diversidade sexual (vários posts): https://foradoarmario2.blogspot.com/search?q=rabino


A revista citada, na qual Sobel expressou sua homofobia motivada por crença religiosas, é a Ultimato

LACRAÇÃO: Drag Queen Tchaka vai ser homenageada em Londres


Por Sergio Viula





Assista esse vídeo baseado numa 'live' feita no Facebook e veja onde Tchaka foi parar dessa vez.

Lacração geral.




Visite o site da Tchaka.
Biografia citada daqui: http://www.tchaka.com.br/biografia.
Conheça o site dessa fantástica Drag Queen.

Para saber mais sobre essa exposição em Londres, leia a matéria do site Põe na Roda

Bixa Travesty: Filme com Linn da Quebrada



Por Sergio Viula


Acabamos de assistir Bixa Travesty, um filme com Linn da Quebrada, no Espaço de Cinema Itaú, que fica em frente à praia de Botafogo, Rio de Janeiro. O cinema só projeta o filme uma vez por dia, sempre na sessão das 22h. A entrada é baratíssima: 12 reais a inteira e 6 reais a meia. Os preços desse cinema nunca são menores que 30 reais para inteiras. Quem tem cartão Itaú, independentemente da idade, paga meia. Então, aproveite!

O filme é mais do que ousado. Linn e outros personagens que aparecem no filme fazem do corpo uma revolução, e da própria vida transcendência. Ela e eles querem trans-cender os papéis atribuídos ao masculino e ao feminino. Querem embaralhar, não definir ou reforçar estereótipos. 

Não há zonas proibidas em sua corporalidade. Lynn mostra tudo, mas nunca gratuita ou fortuitamente. Sua rotina é imersa em tensões, superações, re-invenções, trans-formações de si mesma em ambientes onde o machismo, a transfobia, a homofobia e a precariedade econômica parecem se perpetuar contando com a cumplicidade do conformismo por parte dos envolvidos. Linn é inconformada, mas não ressentida. Sua prórpia existência se dá no enfrentamento de tudo isso.

Recomendo sem reservas, mas alerto: não é uma obra feita para vender. É um manifesto feito para subverter aquilo que castra, oprime e reduz o eterno devir do humano, sempre múltiplo, a uma identidade cristalizada.

Compre seu ingresso no Rio de Janeiro aqui: https://www.ingresso.com/rio-de-janeiro/home/filmes/bixa-travesty#!#data=20191124 Para conferir se está em outras cidades, basta mudar a localização aí mesmo nesse site. 


Assista o trailer e não perca. Bixa Travesty não ficará em cartaz por muito tempo.




P.S.: Foi um prazer assistir esse filme por indicação de nossos amigos Eduardo Michels e Flavio Micelli. 

Sergio Viula e Andre Dias (esquerda)
Eduardo Michels e Flavio Micelli (direita)


Aterrorizante: Crianças adotadas são arrancadas de seus pais gays na Rússia

Autoridades invadem apartamento de dois homens gays que tinha filhos adotados


Os investigadores envolvidos usaram a chamada "lei de propaganda gay" da Rússia para remover as crianças de seus lares.




Autoridades revistaram apartamento e causaram prejuízos a uma família formada por um casal homoafetivo e dois filhos adotivos. Foto: Facebook.




Fonte: Gay Star News
Traduzido e adaptado por Sergio Viula


Uma visita à sala de emergência logo se tornou um pesadelo para dois pais, que foram separados de seus filhos adotivos depois que as autoridades ordenaram que os meninos fossem retirados deles. Advogados dos homens decreveram a situação como "aterrorizante".

Em 19 de junho, dois homens russos levaram um de seus filhos ao hospital de Moscou para tratar um caso com suspeita de apendicite. Os homens não serão identificados aqui para sua segurança.

Assim que o médico descobriu que o garoto tinha dois pais, ele não hesitou em denunciar os dois para o Comitê Investigativo da Rússia. Além de ordenar que as autoridades removessem os meninos de seu lar, o Comitê processou os assistentes sociais envolvidos no processo de adoção por negligência.

Cerca de um mês depois, as coisas pioraram. As autoridades russas tentaram várias vezes revistar o apartamento dos pais e da família mais próxima deles. Por fim, derrubaram a porta do apartamento do casal e de um dos seus irmãos. Os investigadores também interrogaram um dos pais das crianças por mais de três horas.

Propaganda Gay

O Comitê decidiu que a adoção contrariava a controversa lei de "propaganda gay" da Rússia. Desde 2013, a lei proibe qualquer representação positiva de pessoas LGBT+ na mídia. O governo argumenta que a lei interrompeu a "promoção de relações sexuais não tradicionais para menores". Porém, o que a lei tem produzido é vigilância e perseguição diuturnas contra pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgêneras até mesmo em questões privadas como a vida familiar.

Grupos LGBTI de Moscou e de São Petersburgo uniram forças para apoiar o casal e prover-lhes assitência legal.


Como aconteceu a adoção?

A Rússia não permite a adoção por casais homoparentais. Acontece que um dos homens adotou os dois garotos legalmente. Os meninos tinham 12 e 14 anos de idade em 2010. Como pessoas solteiras podem adotar, e ele se encaixava no perfil, os assistentes sociais não recusaram o pedido de adoção.

De acordo com os advogados do casal, a agência de adoção em Lyublino realizava visitas regulares à casa deles desde 2010. Foram nove anos até o momento do ataque do governo contra a família. Durante todo esse tempo, a agência relatou que os dois homens cuidavam muito bem dos meninos.

De acordo com Polina, uma ativista da organização "Saindo do Armário", sediada em São Petersburgo, "os vizinhos do casal estavam presentes durante a revista e conversaram com a mídia. "Eles só disseram coisas boas sobre a família".

"De acordo com eles [os vizinhos], eles não notavam qualquer sinal de problema, as crianças cresciam numa atmosfera calma e inteligente, e os pais cuidavam dos filhos." - comenta Polina.

Polina diz que a lei de "propaganda gay" foi redigida de modo tão vago que não deixa claro o que é ilegal ou não. 

Provavelmente, essa seja a razão pela qual essa aberração legislativa crie insegurança jurídica e dê margem para discriminação em todo o território russo, inclusive com uso de violência física, verbal e simbólica.

"A única coisa que pessoas LGBTI podem fazer para ficarem completamente seguras é permanecer na invisibilidade, é esconder sua orientação sexual e identidade de gênero, mentir em seu ambiente social", diz Polina.

"Também ficou claro que famílias homoafetivas com filhos seriam o grupo mais vulnerável sob essa lei, porque sob essa lei, você está "fazendo propaganda" todo dia apenas por ser uma família." 

Polina também descreve o sentimento daqueles que são LGBT+ ou se solidarizam com suas lutas: "Estamos todos apavorados por causa das famílias com filhos adotivos, pois seria muito fácil anular adoções e destruir famílias."

"Essa tendência causará muito dano, primeiro e acima de tudo para as crianças, que de outro modo teriam famílias amorosas e solidárias", finaliza Polina.

"Avental todo sujo de ovo": Veja como foi a estreia

Por Sergio Viula

‘Avental Todo Sujo de Ovo’: Casa Rio (Botafogo)





Fomos convidados para a estreia da peça Avental Todo Sujo de Ovo, dirigida por Mario Cardona Jr. e encenada pelas maravilhosas Ana Carolina Rainha, Gabrielle Joie, Nísia Rocha e pelo igualmente maravilhoso Van Furlanetti.

A chegada

Logo na entrada, fomos recepcionados por Nísia Rocha no papel de Noélia, uma tagarela senhora que cuida de uma quermesse em sua paróquia. Degustamos arroz-doce enquanto a anfitriã desfiava um rosário de fofocas locais com tiradas engraçadas sobre sua própria vida e sobre a vida dos outros. Apesar da desconstração, nada no cenário era fortuito. As conexões, porém, só ficariam nítidas ao longo do espetáculo.



Nisia Rocha no papel de Noélia trabalhando na quermesse da paróquia


Enquanto envolvia o público com sua prosa fluente, Noélia convidava pessoas da plateia para jogar damas e dominó. Em seguida, conduziu-nos à casa de sua amiga Alzira, representada por Ana Carolina Rainha, esposa de Antero, personagem encarnado por Van Furlanetti.


Dulceh Siqueira (jornalista) jogando dominó com um espectador.




Cardona, o diretor, jogando damas com um espectador.



Enquanto intercalavam falas divertidas com outras profundamente angustiadas, Noélia e Alzira arengavam sobre quase todo tipo de assunto, sendo tema recorrente a ausência de Moacir, filho de Antero com Alzira.

À medida que a peça avança, somos informados que o rapaz saíra de casa nove anos antes. Ao longo desse tempo todo, nenhum sinal de vida. Alzira revela-se uma mãe aflita, mas incapaz de qualquer autocrítica. Ao mesmo tempo em que sofria por não saber se o filho estava vivo ou morto, a angustiada progenitora agia como se não soubesse por que motivo ele teria sumido no horizonte.

Antero é um marido alienado. Passa o dia inteiro fora de casa, mas não trabalha desde que teve um lado paralisado por causada de um derrame. O belo e jovem ator Van Furlanetti fica irreconhecível sob a pele desse homem no fundo do poço.

Os diálogos travados por Noélia, Alzira e Antero criam expectativa no público sobre o que teria acontecido para que Moacir saísse de casa tão abruptamente e permanecesse incomunicável por quase uma década.


Andre Dias, Sergio Viula (nós), Ana Carolina Rainha e Gabrielle Joie (atrizes)



Um dos momentos mais marcantes da peça se dá quando Noélia e Alzira cantam um verso da música ‘Mamãe’, de Herivelto Martins e David Nasser. Além da emoção da própria cena, uma senhora com mais idade do que a média na plateia simplesmente decidiu fazer coro com as atrizes. Ao perceber isso, Nísia Rocha (Noélia) se aproximou dela e a envolveu perfeitamente na cena. Todos aplaudiram.

A música dá nome à peça. O título foi inspirado numa frase do verso cantado nesse momento do enredo.

As respostas só começam a aparecer próximo ao final da peça, quando Moacir chega em casa sem avisar. Na verdade, o filho que havia saído não era o mesmo que voltava agora. Pelo menos, não nos moldes rememorados por seus pais e por Dna. Noélia, madrinha do rapaz.

A belíssima Indienne é interpretada pela atriz Gabrielle Joie, que também atua em Bom Sucesso, novela das 7 produzida pela Rede Globo. Quando ela entra em casa, a mãe está sozinha. As duas falam conversam, mas a mãe continua em negação.

Ouvi de uma mulher trans ao final do espetáculo que o drama de Indienne deveria ter recebido mais espaço. Ela disse que gostaria de ver um nível mais profundo de problematização sobre as questões vividas por pessoas trans, especialmente as que saem de casa por causa da incompreensão e do preconceito da família.

Acredito que a crítica procede. De fato, os personagens Alzira e Noélia, principalmente esta, falam por muito tempo, enquanto a jovem Indienne poderia ter ocupado mais espaço em cena e discorrido sobre os problemas enfrentados por ela em função da transfobia familiar.

Deixarei os diálogos que surgem a partir do reencontro entre "Moacir" (Indienne) e sua família, bem como seu desfecho, a cargo da imaginação de cada leitor. Jamais faria spoilers sobre o final de um espetáculo.

De qualquer modo, quem desejar conferir o espetáculo pessoalmente poderá assisti-lo na Casa Rio.


Mario Cardona Jr. dando as boas-vinda ao público na abertura


Três merecidos destaques

1. Vida real: É admirável a energia de Nísia Rocha (atriz que faz Dna. Noélia). Mesmo depois de uma intervenção para colocação de marcapasso, ela não deu qualquer sinal de cansaço antes, durante e depois do espetáculo. Nísia simplesmente irradiava alegria e força imbatíveis dentro e fora do palco. A estreia da peça estava prevista para data anterior a ontem, mas foi adiada justamente por causa da colocação do marcapasso. Nísia, porém, estava ali inteira e faceira.

2. Outro destaque vai para Ana Carolina Rainha, que performou Alzira sem qualquer contradição. A atriz conseguiu eliminar até os mais sutis vestígios da mulher poderosa e envolvente que ela é na vida real para se tornar Alzira - sua mais perfeita antítese. Mãe de Moacir é uma mulher angustiada, sofrida, mal arrumada, dona de gestual e fala típicos de uma dona-de-casa muito pobre do interior. Ana Carolina Rainha desaparece completamente em Alzira durante toda sua atuação.

3. Como deixar de ressaltar o excelente trabalho de Mario Cardona Jr.? Além do êxito na direção do espetáculo, ele é de uma incomparável doçura para com todos. Cardona, que atuou em novelas da Rede Record, tocou profundamente minhas emoções quando representou Stephen, um homem cego e gay que reencontra a alegria de viver graças a um massagista chamado Adam. Sua performance foi implacável, especialmente quando interagia com Ana Carolina Rainha, a irmã carola e homofóbica de Adam. Esse espetáculo (As Divinas Mãos de Adam) teve seu texto escrito pelo meu amigo Roberto Muniz e foi exibido no Parque das Ruínas (Santa Tereza, Rio) em maio desse ano. Cardona me disse que a peça deverá retornar aos palcos, mas ainda não tem data específica. Enquanto isso, você poderá conhecer seu trabalho como diretor do espetáculo "Avental Todo Sujo de Ovo" na Casa Rio (Botafogo).


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O espetáculo acontece todas as segundas-feiras, a partir das 21h:45m. A última apresentação será em 16 de dezembro. Não perca.



Casa Rio

Endereço: Rua São João Batista, 105, Botafogo, Rio de Janeiro

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Duração: 75 minutos

Classificação: 14 anos

Saiba mais sobre a Casa Rio AQUI.



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Foto publicada por Ana Carolina Rainha

Com nosso diretor ! @mariocardonajr AVENTAL TODO SUJO DE OBO ! Gratidão @pauloeduardocal @waldopiano @selene83.br @priscilla_aragaoo @meimourao @marintrindade @dulceh_siqueira @komulinkaagendacultural ao elenco: @anacarolinarainha @gabejoie @nisia.rocha @vanfurlanetti a @casa_rio105 @funarj e a todos que foram nos assistir. Foi MARAVILHOSO! — em Casa Rio.



Ficha técnica

Peça: Avental Todo Sujo de Ovo

Texto: Marcos Barbosa

Desenho de Luz : Anauã Vilhena

Direção: Mario Cardona Jr.

Figurino e Cenário: Ana Carolina Rainha , Nísia Rocha, Meirese 
Rosemberg

Elenco: Ana Carolina Rainha, Gabrielle Joie, Nísia Rocha, Van Furlanetti

Trilha sonora: Paulo Eduardo Anzai

Assessoria de Imprensa e Mídias sociais: Dulce Siqueira

Produção Executiva: Marina Trindade

Foto e designer: Priscila Aragão

Produção Vocal: Waldo Piano

Realização: Cia Popular Versátil.

Consciência Negra e LGBT: Desafios persistentes

Por Sergio Viula





Em eras pré-bolsonarianas, mais precisamente em 2017, a Agência Brasil publicou que os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira, representando 53,6% da população em 2014. Os dados foram coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

De acordo com as estatísticas oficiais naquele ano, eles eram a maioria entre os mais pobres. Dos 10% mais brasileiros mais pobres, 76% tinham eram negros e viviam com renda média mensal de R$ 130 por pessoa na família. Ou seja, três em cada quatro pessoas que estão entre os 10% mais pobres do país eram negras. 

Depois da eleição de Jair Bolsonaro, muitas organizações governamentais ligadas a ministérios e secretarias que se ocupavam de questões sócio-econômico-culturais como essas foram desmontadas, extintas ou simplesmente transformadas em peça de decoração. 

Apesar das ações desastradas ou (quem sabe?) mal-intencionadas da administração atual, o IBGE continua fazendo seu mapeamento multidisplinar com diversos recortes relevantes para a compreensão da realidade brasileira. De acordo com a Revista Exame, no dia 13 de novembro último, "a população negra tem 2,7 mais chances de ser vítima de assassinato do que os brancos." A informação vem do informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, divulgado naquela mesma quarta-feira (13), no Rio de Janeiro, pelo IBGE.

A Revista Exame também destaca a fala da analista de indicadores sociais daquele instituto, Luanda Botelho, dizendo que "enquanto a violência contra pessoas brancas se mantém estável, a taxa de homicídio de pretos e pardos aumentou em todas as faixas etárias." A análise leva em consideração os anos de 2012 a 2017.

A Exame acrescenta que "de acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, foram registradas 255 mil mortes de pessoas negras por assassinato nos seis anos analisados."

Essa violência com forte motivação racista, seja ela praticada pelo cidadão ou pelos agentes do Estado, não pode ser tolerada, muito menos naturalizada. É preciso deter a sangria da população negra. E isso passa por investimento em promoção social e cultural voltada para esse segmento, especialmente nas camadas mais pobres.


Boa notícia

Também na quarta-feira (13), a Agência Brasil divulgou uma notícia especialmente promissora: "Pela primeira vez, negros são maioria no ensino superior público." 

A reportagem acrescenta que, segundo o IBGE, as matrículas de pretos e pardos somaram esse ano 50,3%. 

Todavia, essa mudança não caiu do céu. Desde 2003, as políticas afirmativas da adminstração Lula, bem como as políticas de cotas raciais implementadas pelas reitorias de universidades públicas vêm fazendo toda a diferença. 

Vale ressaltar que a primeira universidade a implantar cotas raciais em seus exames de admissão foi a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) em 2004. Posteriormente, outras universidades criaram políticas semelhantes - tanto estaduais como federais por todo o território nacional. 

Mas, a mudança que transformou a rara presença de alunos negros nas universidades públicas em mais da metade do alunado jamais teria sido possível se não fosse a resilência da própria população negra brasileira, que precisa se esforcar muitíssimo mais que qualquer cidadão branco de nível semelhante ou até mesmo de camadas inferiores (quando é o caso), uma vez que estes acessam mais facilmente tanto o ensino de qualidade como outras vantagens de caráter educacional e profissional.

Se somarmos ao recorte de raça (negra nesse caso), um recorte de gênero (o de mulher, por exemplo), as coisas ficam mais difíceis sob muitos aspectos. O nível de dificuldade aumenta se acrescentarmos outro recorte - o da transgeneridade, só para citar o mais conhecido. As pessoas que se encontram nesse segmento populacional enfrentam níveis mais altos de racismo, misoginia e transfobia - ora mais visivies, ora mais sutis.

Se entrar na escola ou universidade é difícil para essas pessoas em função de várias privações vivenciadas desde muito cedo na vida, permanecer é um desafio maior ainda, especialmente por causa do bullying que enfrentam por parte de colegas e (pasmem!) até mesmo de alguns professores e de outros profissionais ligados à comunidade escolar ou acadêmica. O mesmo vale para homens negros transexuais. Eles sofrem discriminação motivada por racismo, machismo e transfobia. 

Além dos prejuízos individuais que essas pessoas sofrem por causa da rejeição e perseguição homo-transfóbica, que podem causar danos irreparáveis em nível físico e mental, quando não causam a morte da vítima em casos de violência letal, a sociedade se priva de talentos fantásticos, que são desperdiçados todas as vezes que essas pessoas são impedidas sutil ou abertamente de acessar o que é seu por direito.

Comunidade Negra LGBT

Quando se trata de negros e negras LGBT, os obstáculos variam de acordo com o nível de 'passabilidade' de sua orientação sexual ou transição de gênero, isto é, quanto essas pessoas conseguem passar sem serem notadas como se fossem pessoas cisgêneras heterossexuais. 

Quando são reconhecidamente transexuais ou homossexuais cisgêneras, essas pessoas podem enfrentar muito mais dificuldades do que aquelas que passam perfeitamente (ou quase perfeitamente) por homem ou mulher heterossexual. E isso acontece com alguém que é negro, é comum ouvir "não basta ser preto, ainda é viado", e coisas de semelhante teor.

Pessoas transgêneras que se relacionam romântica e sexualmente com pessoas do mesmo sexo com o qual se identificam encaram outros desafios, mas também desfrutam de possibilidades diversas. Quando a conjugalidade é caracterizada pela união de uma mulher trans com uma mulher cis ou um homem trans e um homem cis, em muitos casos, é possível que gerem filhos biológicos e paridos pelos parceiros, já que muitos homens trans mantém seus úteros e muitas mulheres trans conservam seus orgãos genitais (testículos, inclusive). 

Porém, nesse casos, além da homofobia que ambos os parceiros podem enfrentar, indepententemente do seu nível de assimilação social no gênero com o qual se identificam, pois trata-se de duas mulheres ou de dois homens se relacionando como esposa e esposa ou marido e marido, eles também poderão enfrentar transfobia, pois tais transexuais casados com pessoas cisgêneras do mesmo gênero não desfrutarão da invisibilidade que uma casal formado por um(a) transgênera e uma pessoa cisgênera de gêneros diferentes poderá usufruir boa parte do tempo. 

Trocando em miúdos: Um homem trans com um homem cis é um casal homoafetivo, mas um homem trans com uma mulher trans ou com uma mulher cis é um casal heteroafetivo. Do mesmo modo, uma mulher trans com uma mulher cis formam um casal homoafetivo, enquanto uma mulher trans com um homem trans ou cisgênero formam um casal heteroafetivo.

Como se vê, gênero e orientação sexual não são a mesma coisa e podem se combinar de muitas maneiras diferentes, resultando em muitas possibilidades de realização, mas também muitas em desafio bastante peculiares a cada realidade. 

Para não me alongar mais do que isso, gostaria de recomendar uma cena da série POSE, acessível no Netflix, que foi apresentada em sua primeira temporada, episódio 1

Assista abaixo em duas partes, mas é tudo curtinho. O vídeo só está dividido porque o Blogger não aceitaria a cena toda num vídeo só. Vale a pena assistir. O tempo total da cena (todos os vídeos) é de uns 3 minutos no máximo.




Parte 1 (cena curtinha)



Parte 2 (cena curtinha)



Parte 3 (cena curtinha)



Parte final


Se tudo isso toca seu coração, sendo você negro ou não; lésbica/gay/bissexual ou heterossexual; transgênero ou cisgênero, peço que compartilhe esse post. Mas, acima de tudo, seja um aliado ou uma aliada das pessoas que fazem parte desses grupos sociais em suas demandas por liberdade, respeito, direitos e paz. Nada menos do que isso se justifica afetiva ou racionalmente.

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